No Dia do Livro Infantil e no Dia Mundial do Livro, educadoras mostram como o storytelling vai além da leitura e se torna ferramenta de formação, pertencimento e poder
No mês em que se celebram o Dia Nacional do Livro Infantil (18 de abril) e o Dia Mundial do Livro (23 de abril), a literatura ganha destaque não apenas como hábito cultural, mas como instrumento de transformação social. Em um cenário marcado pelo excesso de telas e pela dispersão, contar histórias e formar leitores se torna um ato de resistência e também de construção de autoridade.
Para entender esse movimento, conversamos com duas mulheres que vivem a literatura na prática: a pedagoga, escritora infantil e contadora de histórias Jacqueline Akalo e a pedagoga e escritora Aline Lourenço. Suas trajetórias revelam como o storytelling pode impactar identidades, fortalecer vozes e reescrever narrativas.
Da sala de aula ao protagonismo: quando a história transforma o olhar
Com mais de 30 anos na educação, Jacqueline Akalo construiu uma trajetória sólida dentro e fora da sala de aula, atuando como professora, gestora escolar, contadora de histórias e agente de leitura. Seu trabalho também se conecta a projetos educacionais relevantes, como o desenvolvido no Colégio Estadual Clodomiro Vasconcelos, onde criou iniciativas voltadas à formação literária com foco na educação antirracista.

Os resultados desse trabalho são reconhecidos: a escola conquistou o Selo de Escola Antirracista e também se destacou na Obereri, uma olimpíada educacional do estado do Rio de Janeiro, alcançando o 16º lugar em 2025 e o 38º lugar em 2024.
Mas foi a partir de uma formação sobre relações étnico-raciais que sua visão mudou completamente.
“Eu comecei a enxergar coisas que sempre estiveram na minha frente, mas que eu não percebia. Isso me causou um incômodo muito grande”, relembra.
A partir desse “despertar”, Jacqueline passou a desenvolver um trabalho focado na literatura com protagonismo negro e indígena, levando contação de histórias para escolas e formando novos leitores e também futuros educadores.
O livro como espelho: representatividade e construção de identidade
Para Jacqueline, a literatura infantil tem um papel fundamental na formação das crianças, principalmente quando elas se reconhecem nas histórias.
“O primeiro museu que uma criança visita é o livro”, afirma. “E hoje ela pode se ver ali dentro, diferente de antes, quando só existiam referências eurocêntricas.”
Essa identificação vai além do entretenimento: influencia diretamente na autoestima, no comportamento e na forma como a criança se posiciona no mundo.
Ela relembra um momento marcante em sala de aula, quando um aluno, ao ouvir uma história que valoriza cabelos crespos, passou a enxergar a própria realidade de forma diferente.
“Se black é cabelo de rei, então o da minha mãe também é bonito”, disse o menino durante a atividade.
Para a educadora, esse é o poder da narrativa: reconfigurar percepções e romper ciclos.
Contar não é apenas ler: a força da oralidade e do afeto
Em tempos de tecnologia e consumo rápido de conteúdo, a contação de histórias mantém um espaço único. Segundo Jacqueline, isso acontece porque ela envolve algo que nenhuma tela substitui: presença.
“A contação de histórias é um momento de afeto. É alguém parando para te ouvir e te olhar. Isso nenhuma tela faz.”
Ela explica que o trabalho envolve técnicas, preparação e intencionalidade desde o uso da voz até elementos visuais e interação com o público. Não é apenas ler um texto, mas criar uma experiência.
Entre dores e descobertas: a escrita como ferramenta de voz
A trajetória de Aline Lourenço também mostra como a literatura nasce de vivências. Professora e escritora, ela não sonhava em seguir carreira na educação principalmente por experiências negativas na escola, marcadas por racismo.

“Eu não queria ser professora de jeito nenhum. Mas a educação me escolheu”, conta.
Hoje, em sala de aula, ela faz exatamente o oposto do que viveu: utiliza a literatura como ferramenta de acolhimento, reflexão e transformação.
Seus livros abordam temas como autoestima, relações amorosas, identidade e inclusão sempre com base em histórias próximas da realidade dos jovens.
Literatura como formação de caráter e consciência social
Para Aline, a literatura vai muito além da leitura: ela forma pensamento crítico e comportamento.
“A gente ensina para formar seres humanos que não sejam racistas. Não é só conteúdo, é prática.”
Ela relata que seus alunos frequentemente levam discussões para além da sala de aula, refletindo sobre bullying, respeito e diversidade.
Esse impacto também aparece na escolha das histórias. Para ela, uma boa narrativa precisa ser acessível, representativa e conectada com a realidade do leitor.
“O aluno precisa se ver ali. Quando isso acontece, ele se envolve de verdade.”
O desafio das telas e o papel da escola
Ambas concordam que o maior desafio atual é competir com o universo digital, mas não de forma direta, e sim resgatando o prazer da leitura.
Aline critica a forma como a leitura ainda é imposta nas escolas:
“Quando vira obrigação, perde o encanto. A leitura precisa ser construída aos poucos, de forma prazerosa.”
Já Jacqueline destaca a importância de criar ambientes que incentivem esse hábito, como cantinhos de leitura e experiências mais interativas, algo que ela mesma aplica em seus projetos e formações.
Literatura, cultura e resistência
Apesar dos avanços, ainda existem barreiras, especialmente quando a literatura aborda temas ligados à cultura afro-brasileira e religiosidade.
Jacqueline relata episódios em que histórias foram questionadas por pais, mesmo sendo trabalhadas como conteúdo cultural.
“Não é sobre religião, é sobre cultura. Mas ainda existe resistência.”
Para as duas educadoras, ampliar o acesso à diversidade na literatura é essencial para formar uma sociedade mais consciente e inclusiva.
Mais do que ler: contar, escrever e transformar
Seja na escrita, na sala de aula ou na contação de histórias, Jacqueline Akalo e Aline Lourenço mostram que a literatura é um espaço de construção de identidade, de pensamento e de futuro.
Com projetos reconhecidos, atuação premiada e impacto direto na formação de jovens leitores, Jacqueline reforça que a literatura é também um caminho de transformação coletiva.
No fim, a mensagem é simples, mas potente:
Ler é mais do que decifrar palavras.
É se reconhecer, se questionar e, principalmente, se transformar.



