Na última terça-feira (2), um menino negro de 5 anos morreu após cair do 9° andar de um prédio de luxo no bairro de São José, no Centro de Recife. O caso ocorreu em um dos edifícios do Condomínio Píer Maurício de Nassau, conhecido como “Torres Gêmeas”. Miguel Otávio Santana da Silva era filho de uma empregada doméstica que trabalhava no imóvel do Sérgio Hacker (PSB), prefeito de Tamandaré, e sua esposa, Sarí Corte Real.
A queda
Em decorrência das medidas restritivas para reduzir o contágio de Covid-19 na capital, estão fechadas instituições de ensino, comércio, bares, cinemas, praias, parques e outras atividades não essenciais. Em meio à pandemia, o serviço doméstico não é considerado essencial, mas Mirtes Renata Santana de Souza não parou de trabalhar. Naquele dia, com as aulas suspensas e sem poder deixar o menino aos cuidados da avó, que precisava ir ao banco e buscar uma receita médica, a funcionária levou seu único filho à residência dos empregadores.
Em certo momento, a pedido de Sarí, Mirtes desceu com o cachorro de estimação da família para passear e a avisou que as crianças, Miguel e a filha dos patrões, não iriam junto porque estavam “dando trabalho”. De acordo com a polícia, enquanto a mãe estava no térreo, o menino quis encontrá-la. As câmeras de segurança revelam que o menino tentou entrar duas vezes, sem acompanhante, no elevador.
As gravações mostram a mulher segurando a porta do elevador e conversando com o menino, que carrega uma máscara nas mãos. Por fim, ela parece apertar um botão de um andar superior e permite que ele fique sozinho no local, voltando para o apartamento onde uma manicure fazia as unhas dela. A luz do botão que ela aperta não acende, no entanto, é possível ver que que acende a luz de outro botão apertado pelo menino quando a porta já está fechando.
Por meio da câmera do condomínio, a perícia identificou que a criança foi do 5° para o 9° andar. As últimas imagens do menino mostram ele correndo para fora do elevador, em direção ao hall de serviços, local onde fica o condensador do ar-condicionado. Ele escalou uma altura de 1,2 metro, subindo o parapeito que abre acesso para a casa de máquinas. André Amaral, perito que investigou a cena, contou que “ele [Miguel] chegou ao guarda-peito, que é de alumínio. A quarta aleta dessa grade, que tem marca, quebrou”. Miguel sofreu uma queda de 35 metros.
Mirtes, que estava no térreo no momento da queda, foi até a portaria para buscar uma encomenda e soube que alguém havia caído. Poucos minutos depois, descobriu que a vítima era seu próprio filho. O menino ainda estava com vida e, seguindo a recomendação de um vizinho que era médico, não esperaram o Samu e Miguel foi levado às pressas pela mãe e a patroa, no carro de Sarí, para o Hospital da Restauração (HR), no bairro de Derby. No entanto, pouco tempo depois, a mãe foi informada que o filho não havia sobrevivido.
Identidade revelada e fiança de R$ 20 mil
Na noite de terça-feira, a patroa foi presa em flagrante por suspeita de homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Ela foi liberada após pagar fiança no valor de R$ 20 mil e responderá pelo caso em liberdade. Inicialmente, Mirtes não quis falar com a imprensa e a polícia não divulgou o nome da proprietária do imóvel. Mas, após assistir os vídeos da câmera de segurança do condomínio que confirmavam a negligência da patroa, a funcionária revelou a identidade dos empregadores. Tanto ela quanto a mãe, que também trabalhava para o casal, pediram demissão.
Racismo
Em entrevista por telefone à BBC News, a historiadora Luciana da Cruz Brito, professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e especialista em história da escravidão, abolição e pós-abolição no Brasil e nos EUA, afirmou que “a patroa colocou o menino no elevador e sequer ficou vigiando pra saber se ele tinha voltado ou não. Ela não sabia que ele tinha caído. Isso revela um desprezo por um ser humano. E é aí que eu vejo uma noção de supremacia branca. Não precisa vestir roupa da Ku Klux Klan”.
Na última quinta-feira (4), Mirtes conversou com a TV Globo. “Ela confiava os filhos dela a mim e à minha mãe. No momento em que confiei meu filho a ela, infelizmente ela não teve paciência para cuidar, para tirar [do elevador]. Eu sei, eu não nego para ninguém: meu filho era uma criança um pouco teimosa, queria ser dono de si e tudo mais. Mas assim, é criança. Era criança”, lamentou a mãe.
Fontes: G1, BBC, Metrópolis, El Pais, Extra




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